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:: resposta ao questionário de Proust :: «Não tenho nenhuma máxima preferida.»
 
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antónio manuel venda

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1.O que é para si a felicidade absoluta?
R–A felicidade absoluta, aquela em que já pensei tantas vezes, transformou-se sempre, com o passar do tempo. Não vale a pena registar a deste momento como se estivesse a escrever numa agenda a melhor de todas as felicidades do dia não sei quantos. E conhecendo num determinado momento uma felicidade absoluta, o que responderia eu então a esta mesma pergunta?

2.Qual considera ser o seu maior feito?
R–Nem é uma questão de eu considerar ou não, mas tenho a certeza de que é ter chegado até aqui, a um dia de 2007. Pode até nem ser grande coisa, mas pelo menos dos registos não dá para apagar.

3.Qual a sua maior extravagância?
R-Não sei. Já me falaram em extravagâncias que cometi sem eu perceber por que é que haveriam de ser extravagâncias. Talvez o mais correcto seja dizer que já fiz coisas que me surpreenderam; qualquer dos livros que escrevi acabou por surpreender-me, porque eu sempre ia duvidando de que conseguiria chegar até ao final.

4.Que palavra ou frase mais utiliza?
R–Ao reler o que escrevo dou muitas vezes com coisas do género «talvez», «provavelmente», «se calhar», «na volta» ou «quem sabe». A resposta há-de andar por aí.

5.Qual o traço principal do seu carácter?
R–O inconformismo é algo que noto facilmente que convive comigo todos os dias. Há outras coisas que igualmente noto sem fazer um grande esforço; por exemplo, a mania de avaliar-me, de perceber se estou a ser justo com os outros e até, por vezes, comigo próprio.

6.O seu pior defeito?
R–Uma certa incapacidade para dizer não em determinadas situações, coisa que tenho procurado inutilmente corrigir.

7.Qual a sua maior mágoa?
R–Não consigo pensar numa mágoa assim tão grande que se possa logo qualificar como «a maior».

8.Qual o seu maior sonho?
R–Conto apenas alguns dos meus sonhos. O maior não conto, mesmo que consiga isolá-lo facilmente.

9.Qual o dia mais feliz da sua vida?
R–Acredito que será um dos próximos dias.

10.Qual a sua máxima preferida?
R–Não tenha nenhuma máxima preferida.

11.Onde (e como) gostaria de viver?
R–Gosto de viver onde vivo, e como vivo. Uma vez, há já uns bons anos, eu passeava junto à zona onde vivo. Agora lembro-me de como estava longe de imaginar que iria viver nessa zona, e que gostaria.

12.Qual a sua cor preferida?
R–A cor verde, mas apenas nalguns tons.

13.Qual a sua flor preferida?
R–A flor de um romance que escrevi.

14.O animal que mais simpatia lhe merece?
R–Provavelmente o mocho. Gosto muito de animais, pelo que responder «o mocho» o mais certo é ser uma injustiça, mas por vezes encontro mochos à noite, na estrada a caminho de casa, não sei se a dormirem se nalguma forma de meditação lá deles, e a verdade é que costumo ficar a observá-los durante um bocado.

15.Que compositores prefere?
R-Chostakovitch; e por vezes a loucura de Mozart.

16.Pintores de eleição?
R-Gostos de alguns quadros de Paula Rego, Diego Rivera, Salvador Dali e Mário Botas. Não sei se a expressão «de eleição» será a mais adequada.

17.Quais são os seus escritores favoritos?
R–Santiago Gamboa, Javier Cercas e Roberto Ampuero, este último infelizmente pouco traduzido em Portugal. Há uns anos referiria certamente Camilo José Cela.

18.Quais os poetas da sua eleição?
R–Deixando logo de lado a «eleição», gosto de alguns poemas de Manoel de Barros, José Luís Peixoto, José Carlos Barros, Paul Éluard e Daniel Maia Pinto Rodrigues; e gosto de muitas letras de canções dos GNR, creio que a maior parte escritas pelo vocalista.

19.O que mais aprecia nos seus amigos?
R–Aprecio muitas coisas nos meus amigos, e bem diversas, tanto que é difícil responder sem estar para aqui a atirar com coisas à toa. Provavelmente a resposta é mesmo o facto de existirem.

20.Quais são os seus heróis?
R–Nunca fui muito de heróis. Até no futebol, e no meu clube, o Sporting, nunca tive uma admiração especial por algum jogador; pensei sempre na equipa.

21.Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
R–Aí acaba por ser diferente. Posso referir alguns… O cowboy Tex Willer, os narradores dos livros de Javier Cercas e Santiago Gamboa, o detective Cayetano Brulé (criado por Roberto Ampuero) e o narrador de um romance de Juan Eslava Galán («Em Busca do Unicórnio»), chamado Juan de Olid.

22.Qual a sua personagem histórica favorita?
R–É difícil isolar um nome, mas pensando em Portugal o primeiro que me ocorre é o de Salgueiro Maia.

23.E qual é a sua personagem favorita na vida real?
R–Esta pergunta acaba por confundir-se com a anterior. O que é uma personagem da vida real? E uma personagem histórica? Uma personagem histórica não é, afinal, uma personagem da vida real?

24.Que qualidade(s) mais aprecia num homem?
R–O sentido de justiça e de auto-crítica e a capacidade de sonhar poderão ajudar muito qualquer homem.

25.E numa mulher?
R–Poderão também ajudar muito uma mulher as qualidades que referi na resposta anterior. Mas para uma mulher talvez um determinado sorriso que para mim é difícil de descrever, e também um determinado olhar.

26.Que dom da natureza gostaria de possuir?
R–O da renovação. De certa forma, procuro eu próprio construir esse dom, mas a natureza nisso está lá muito à frente.

27.Qual é para si a maior virtude?
R–Parece-me que há algumas virtudes que estão próximas umas das outras, quase coladas; à vista desarmada, será impossível medir-lhes as diferenças.

28.Como gostaria de morrer?
R–Muito provavelmente numa história de ficção.

29.Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser?
R–Gostava que me dessem mais escolhas: regressar, ficar, ir para outro sítio. Depende do que soubesse na altura.

30.Qual é o seu lema de vida?
R–Não creio que uma vida se possa reduzir a um lema.

 

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Floresta do Sul

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«A verdadeira viagem de descobrimento não consiste
em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.»

Marcel Proust

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