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:: resposta ao questionário de Proust :: «A vida é uma merda e, depois, morre-se.»
 
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eva dias costa

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1.O que é para si a felicidade absoluta?
R-Isso existe? A vida é um complexo de momentos distintos, de intensidade diferente. Sabemos que estamos felizes, muitas vezes, por contraposição aos momentos em que nos sentimos infelizes e vice-versa. A felicidade deve ser o equilíbrio entre estes instantes, mas ainda não cheguei lá. A felicidade absoluta, a existir, deve estar muito próxima da paz interior.

2.Qual considera ser o seu maior feito?
R-Não tenho nenhum “feito”. Levo a vida como posso e sei, sempre na esperança de fazer melhor amanhã.

3.Qual a sua maior extravagância?
R-Não tenho, realmente. Embora julgue que a maior parte das pessoas que conheço me acha extravagante. Não no sentido “vistoso” do termo. No inverso. Caminho para a misantropia.

4.Que palavra ou frase mais utiliza?
R-“Então vá”. Tipo a Supêtia do Herman José: “então vá”. “Vá onde?”, “Não, querida, que possidónia. Então vá é uma coisa que a gente diz”. :-)

5.Qual o traço principal do seu carácter?
R-A intelectualidade. Algumas pessoas vivem por instinto: eu não consigo sentir o chão que piso, se não estruturar racionalmente a vida. O que nem sempre é possível.

6.O seu pior defeito?
R-A preguiça.

7.Qual a sua maior mágoa?
R-Não ter sabido lidar com as emoções em alturas cruciais. Daí resultaram circunstâncias que são hoje as minhas maiores mágoas. Sem remédio, no entanto, e “o que não tem remédio, remediado está”.

8.Qual o seu maior sonho?
R-Vivo de forma modesta. Gostava de poder voltar atrás e corrigir algumas coisas que deram para o torto, porque houve uma altura em que tive, de facto, tudo aquilo com que poderia ter sonhado. Como não posso, resta-me o prazer de acordar todos os dias na expectativa doce do que a vida tenha para me oferecer.

9.Qual o dia mais feliz da sua vida?
R-Há dois, mas são privados :-). O dia em que casei com o amor da minha vida e aquele em que nasceu o meu petit prince. Não necessariamente por esta ordem.

10.Qual a sua máxima preferida?
R-Utilizo muitas, mas sempre com ironia. As máximas são inverdades. Qualquer regra – incluindo esta – comporta a própria excepção. Melhor formulado ainda, veja-se o teorema da incompletude de Gödel: Nenhum sistema consistente pode ser utilizado para provar a sua própria consistência. Mas gosto de citar o Tao te Ching sempre que posso :-).

11.Onde (e como) gostaria de viver?
R-Numa ilha em Moçambique, com os meus amores. Descalços e a comer o peixe que saísse do mar. Mas com livros, revistas, internet e a possibilidade de vir à civilização de quando em vez. Não é isto o que toda a gente quer???!!!

12.Qual a sua cor preferida?
R-Cores. O verde, as variações de castanho e terra e o azul.

13.Qual a sua flor preferida?
R-As camélias. Também gosto das magnólias e de algumas orquídeas.

14.O animal que mais simpatia lhe merece?
R-O cão, seguramente. Mas estas já parecem aquelas perguntas do horóscopo chinês que às vezes aparecem no email da malta. Daqui a bocado estão a dizer-me que tenho que reencaminhar isto a dez pessoas num minuto senão fico com furúnculos ...

15.Que compositores prefere?
R-Bach. O meu favorito de todos os tempos.Por muito que isto possa soar como uma heresia: mil degraus mais abaixo, Rachmaninov, Shostakosvki, Prokoviev, Mahler.

16.Pintores de eleição?
R-Não sou grande conhecedora de pintura, com muita pena minha. Já tive a sorte de viajar um bocado (ainda não tanto quanto gostaria) e, de tudo o que vi, o que mais retive foram coisas de Klee, Kandinsky, El Greco, Gauguin, Van Gogh, Cezanne e de Tàpies.

17.Quais são os seus escritores favoritos?
R-São muitos e ainda bem: Salman Rushdie, Martin Amis e Saul Bellow, Kazuo Ishiguro, Haruki Murakami, Bruce Chatwin. Nabokov, Alexander Soljenitsyn, E. M. Forster, F. Scott Fitzgerald, Hemingway, Dylan Thomas. E a Jane Austen: não, não é uma escritora menor, é uma mestre do understatement! Em Portugal, a Agustina Bessa Luís.

18.Quais os poetas da sua eleição?
R-David Mourão Ferreira, walter hugo mãe e João Habitualmente. Philip Larkin, T. S. Elliot, Robert Frost. Dylan Thomas outra vez. Shakespeare, nos Sonetos.

19.O que mais aprecia nos seus amigos?
R-A cabeça, fria, o espírito e o coração, abertos.

20.Quais são os seus heróis?
R-Já passei essa fase, o que implica alguma desilusão, própria da idade, acho. Não há heróis.

21.Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
R-Presumo que se referem à banda desenhada. Na literatura, também já não há heróis desde o Ulisses. Mas se tivesse de escolher uma personagem do tipo heróico/trágico, escolheria seguramente o Hamlet. Não gosto de heróis muito standard, limpinhos. Gosto daqueles que têm uma face negra. Daí que, na banda desenhada, não goste do Super-Homem ou do Capitão América. Prefiro o Homem-Aranha e o Hulk. Mas os meus favoritos são as personagens famosas da literatura sob a luz de Alan Moore, na Liga de Cavalheiros Extraordinários, como o Nemo, o Tom Sawyer, o Dorian Grey e a Mina Harker.

22.Qual a sua personagem histórica favorita?
R-Aí está uma pergunta verdadeiramente difícil. Não sei, não conheci nenhuma e os retratos variam demais com as diferentes perspectivas dos historiadores. Utilizando uma “máxima” de um grande filósofo contemporâneo, o Sting: “history will teach us nothing”.

23.E qual é a sua personagem favorita na vida real?
R-Confesso que sempre achei graça ao Bill Clinton, apesar do incidente do charuto. Também gosto do Sting, é a minha costela parola. Se me perguntassem pelas pessoas que me causam menos simpatia, seria muito mais fácil. Responderia com certeza: o actual presidente dos Estados Unidos e o Bill Gates.

24.Que qualidade(s) mais aprecia num homem?
R-Não sei dizer. Ou há química ou não há. Os homens de quem gostei e gosto – muito poucos, chegam e sobram os dedos de uma mão – são, em geral, emotivos e inteligentes, não demasiado intelectuais.

25.E numa mulher?
R-Não gosto de mulheres :-). Mas respeito tudo, não vá o “Movimento pelas Lésbicas Portuguesas” escrever-me um manifesto inflamado. As minhas amigas são mulheres terra-a-terra, independentes, sem serem feministas, e nada galinhas. Gosto de mulheres assim: o mundo é delas.

26.Que dom da natureza gostaria de possuir?
R-O que são dons da natureza? A telepatia é um dom da natureza? Gostava de ser telepata. E de ter um nariz pequenino.

27.Qual é para si a maior virtude?
R-A modéstia.

28.Como gostaria de morrer?
R-Sem contar, depressa, sem violência nem despedidas difíceis.

29.Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser?
R-Não é quem, é o quê. Uma tartaruga. Quero reencarnar numa tartaruga.

30.Qual é o seu lema de vida?
R-“A vida é uma merda e, depois, morre-se”. É uma verdade insofismável. :-) Mas tento complementar esta ideia com os ensinamentos da filosofia oriental e atingir a paz de espírito, deixando-me ir no “fluir inesgotável das mutações”.



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«A verdadeira viagem de descobrimento não consiste
em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.»

Marcel Proust

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