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:: resposta ao questionário de Proust :: «Não sigo um lema de vida. Tenho sonhos e projectos, que vou refazendo, afastando, recuperando, realizando.»
 
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joão de mancelos

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1.O que é para si a felicidade absoluta?
R-Contrariamente à maioria das pessoas, acredito que a felicidade absoluta existe, quanto mais não seja durante alguns instantes, em que nós e os que amamos estamos bem e em comunhão com todas as coisas vivas e inertes. Walt Whitman experimentou este sentimento de harmonia e plenitude, nos êxtases das suas Folhas de Erva. Para este estado de espírito concorre a capacidade de nos abstrairmos dos mil e um incidentes e beliscões da existência. Ou, com mais sabedoria, de atribuirmos a tais percalços a real importância, geralmente mínima, no contexto mais lato da vida. Um exemplo: em 2000, sofri um acidente de automóvel, ao qual sobrevivi quase incólume, enquanto o carro foi para a sucata, o chassis amolgado, os pneus rebentados, os eixos partidos, o motor desfeito a fumegar. Nos dias seguintes, apercebi-me de quão próximo eu estivera da morte. Mais precisamente, a três metros — a distância que separava o local do acidente de uma construção em cimento. Se tivesse colidido contra ela, estaria talvez a responder a este questionário de Marcel Proust face a face com o seu autor. Desde aquele dia, encaro cada minuto da minha vida como um bónus. Por isso, tento relativizar os aborrecimentos, uma atitude nem sempre fácil, no oceano de irrelevâncias do quotidiano. Acredito também que atingir a felicidade absoluta, depende em larga medida de ter tempo. Sem tempo, de nada adiantam a saúde, o amor, a realização profissional e artística, por não os podermos fruir.

2.Qual considera ser o seu maior feito?
R-Ter chegado aos 38 anos perfeitamente fiel aos ideais humanitários e as crenças religiosas que tinha na adolescência. A isto chamo, talvez provocatoriamente, maturidade. Permaneço pacifista, anti-militarista (fui objector de consciência), contra a cultura de morte, contra a discriminação racial e sexual, contra o sadismo das praxes académicas, etc.

3.Qual a sua maior extravagância?
R-Creio que foi ter feito cinco viagens ao estrangeiro, por razões profissionais, mas também turísticas, em menos de um ano, de Agosto de 2002 a Maio de 2003: a Espanha, Inglaterra, França, Polónia, Grécia. Desde então, já visitei a Suécia, a Dinamarca, a Roménia, a Turquia, a Holanda, a Tunísia, etc. Pretendo conhecer e apreciar o mundo na sua diversidade multicultural, antes da globalização — mais aceite por quem a sofre do que imposta por quem a deseja — o homogeneizar. Somos tão diferentes para o outro como o outro é para nós, foi algo que aprendi na prática. É essa a base para o respeito mútuo e para a compreensão intercultural.

4.Que palavra ou frase mais utiliza?
R-Zás!, uma interjeição que, no meu idiolecto, significa Consegui!

5.Qual o traço principal do seu carácter?
R-Sou uma criatura empática, o que, paradoxalmente, me traz alguns dissabores.

6.O seu pior defeito?
R-É difícil escolher, entre tantos. Contudo, para não afirmarem que este é um subterfúgio arrogante, direi que sou uma criatura demasiado preocupada, o que me leva, por vezes, a agir com precipitação e, subsequentemente, a mudar de ideias.

7.Qual a sua maior mágoa?
R-Há algumas feridas abertas, e todas no centro do coração.

8.Qual o seu maior sonho?
R-Sonho para mim viver num país onde alguém com uma licenciatura, um mestrado, um doutoramento, duas especializações e a caminho de ter um pós-doutoramento, como eu, possa encontrar emprego. Por outro lado, sonho para todos um Portugal onde os políticos compreendam que a sua função é servirem o povo e não servirem-se dele.

9.Qual o dia mais feliz da sua vida?
R-Fui abençoado com muitos dias de felicidade desperta, cujas recordações partilho com um círculo mais íntimo de amigos e familiares. Portanto, não confessarei acerca de mim mais do que revelo (?) na prosa ficcional, na poesia e em entrevistas. Perfilho a opinião de Eugénio de Andrade quando determina: “Só a minha poesia é pública”. Semelhantemente, Miguel Torga argumentava: “As relações de um escritor com o seu leitor só começam a ter dignidade para lá das portas da livraria. Cada qual na sua intimidade. A árvore, longe do fruto que já não lhe pertence”.

10.Qual a sua máxima preferida?
R-Num dia pessimista? “Queimarei todas as pontes; possam elas iluminar o meu caminho”. Trata-se de uma frase retirada de um guião de uma série televisiva e como sou um apaixonado pelo cinema... Numa jornada normal? “Vou fazer render o dia”. Não é o “carpe diem” horaciano, que me parece demasiado passivo e que constitui uma desculpa para quem aceita ser levado pela maré, sem dar uma única braçada. Não é por aí que vou.

11.Onde (e como) gostaria de viver?
R-Em qualquer lado, desde que junto às pessoas que amo.

12.Qual a sua cor preferida?
R-O azul (normal ou escuro).

13.Qual a sua flor preferida?
R-Embora prefira florestas a árvores, e árvores a flores, escolheria, dentro destas últimas, as rosas. Mas sem espinhos.

14.O animal que mais simpatia lhe merece?
R-Confesso que tenho fobia a cães de todos os tamanhos, cores, feitios e espécies, apesar de os considerar animais inteligentes e fieis. As pombas, embora símbolo da paz, com ou sem ramo de oliveira, corroem os monumentos e transmitem várias espécies de vírus, sendo apenas as favoritas de senhoras de idade com lenços na cabeça e carteiras pretas. Embora ame o oceano, cujo sal provo no meu livro O Labor das Marés, os peixes são algo desinteressantes, à excepção dos golfinhos e dos tubarões. Opto pelos golfinhos, precisamente por serem os mais parecidos com o ser humano, segundo defendem os biólogos marítimos. Ou serão os tubarões que nos emulam?

15.Que compositores prefere?
R-Referir-me-ei apenas ao instrumental. Não sou grande conhecedor de música clássica e, portanto, não a sei apreciar devidamente. Contudo, admiro determinados compositores, como Beethoven, Vivaldi, Grieg, Tchaikovski e Holst, que me fazem frequentemente companhia quando escrevo. Nos últimos anos, abandonei-me na música instrumental de Tangerine Dream, Vangelis, George Winston (um pianista norte-americano excepcional). Enquanto respondo a esta entrevista, escuto Michael Nyman, cuja colectânea adquiri esta semana e que não me tem desiludido.

16.Pintores de eleição?
R-Aprecio os impressionistas, pós-impressionistas e expressionistas: Monet, Renoir, Cézanne, van Gogh, Munch, Klee, Braque, etc. Deleito-me também a arte mais abstracta e, dentre os portugueses, saliento o meu amigo e vizinho Artur Fino, que ilustrou o meu primeiro livro de poesia, Entre Ausência e Esquecimento (Estante Editora, 1991).

17.Quais são os seus escritores favoritos?
R-Em Portugal, destacaria Mário de Carvalho, João de Melo, Lídia Jorge, Vasco Branco, António Lobo Antunes — um homem inteligente e imaginativo, a quem só não perdoo alguns empadões existencialistas requentados. No estrangeiro, relevaria Haruki Murakami, pela beleza das narrativas e humanismo; Toni Morrison, pela invenção de pessoas de papel e tinta memoráveis; Raymond Carver, pelo uso significativo da ausência como factor de plurissignificação; Kathryn Harrison, pela perfeita criação de atmosferas psicológicas; Douglas Coupland, pela captura dos referentes da cultura popular e dos valores actuais; Ian McEwan pela construção de enredos de tese, e pela caracterização indirecta. McEwan, sobretudo como contista, foi para mim uma influência literária, que reconheço nos meus livros As Fadas Não Usam Batom (Nova Vega, 2004, segunda edição) e O que Sentes quando a Chuva cai? (Nova Vega, 2006). Tenho meia prateleira ocupada pelos seus volumes e tenciono preencher a restante até ao final do ano. Não devo esquecer Rudolfo Anaya, o pai da literatura mexicano-americana, um homem admirável, de quem sou amigo e fã. Foi, aliás, por sugestão minha que a Editora Nova Vega publicou, em Portugal, uma tradução da sua obra mais conhecida, o livro de estreia Abençoa-me, Ultima, com um prefácio generalista de minha autoria. Imperdoavelmente, esse romance excepcional, um clássico do realismo mágico e da etnografia, que é estudado em tantas universidades pelo mundo fora, foi ignorado pela generalidade dos leitores, e só a crítica mais atenta se lhe referiu. Falta-me mencionar um teórico da escrita criativa com o qual muito aprendi e que, sendo eu professor dessa área, não podia deixar de mencionar: Sol Stein.

18.Quais os poetas da sua eleição?
R-Há muitos poetas portugueses e estrangeiros que aprecio e que me influenciaram. Dentre os nossos, relevaria, incorrendo sempre no risco da omissão, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Al Berto, Casimiro de Brito. Há ainda dois autores de Coimbra, cujas obras passaram quase despercebidas, e que coloco entre as melhores dos anos 90: Joaquim Jorge Carvalho (Os Desapontamentos dos Dias) e Paulo Ramalho (Ofício Imperfeito, etc.), ambos publicados pela editora A Mar Arte, agora designada por Alma Azul. Destacaria ainda, sem sair de Coimbra, Isabel Cristina Pires — vale a pena descobrir a sua poética inteligente, sensível, inspirada e sem medo de trilhar novas vias, publicada pela Editorial Caminho. Dentre os escritores norte-americanos, salientaria Emily Dickinson, Hart Crane (cuja obra The Bridge traduzi para Português), e. e. cummings, Walt Whitman, e a poetisa (bem sei, caros ditadores do politicamente correcto, que devo dizer poeta) ameríndia Joy Harjo. O meu interesse sobre o oriente levou-me também a ler Matsuo Bashô e Omar Khayyam. Escrevi críticas, ensaios, e entrevistei alguns destes poetas. Homenageei-os também no meu livro de poemas Línguas de Fogo (Minerva Coimbra, 2001). Creio que essas são também formas de partilhar com outros leitores os meus gostos e de ajudar a (re)descobrir determinadas figuras literárias. Os textos estão disponíveis na minha ciberpágina (http://mancelos.googlepages.com/home).

19.O que mais aprecia nos seus amigos?
R-Que se esforcem por ser meus amigos.

20.Quais são os seus heróis?
R-Mahatma Ghandi, Padre António Vieira, Martin Luther King, Nelson Mandela, Al Gore.

21.Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
R-Um herói: Hawkeye de O Último dos Moicanos, o romance de James Fenimore Cooper, perfeitamente trazido para o grande écran pelo realizador Michael Mann. Uma heroína: a personagem principal da obra Em Nome do Amor, de Meg Rosoff. O romance algo esquecido pelos nossos críticos, talvez por a protagonista não ser uma cínica, intelectualóide, sofisticada e de pernas abertas para o leitor.

22.Qual a sua personagem histórica favorita?
R- Figura real histórica ou personagem ficcional de obra histórica? Se for a primeira, remeto para a resposta à questão vinte; se for a segunda, para a réplica à pergunta número vinte e um.

23.E qual é a sua personagem favorita na vida real?
R-Meu caro Proust, para que quero eu a vida real se tenho a da imaginação? Não é escapismo, apenas outra forma de a abordar a existência (obrigado ao Wallace Stevens, com dois acordes de guitarra azul a rematar).

24.Que qualidade(s) mais aprecia num homem?
R-Empatia.

25.E numa mulher?
R- Também a empatia.

26.Que dom da natureza gostaria de possuir?
R-O talento para compor música ou para a interpretar. Já me contentava em saber tocar ferrinhos.

27.Qual é para si a maior virtude?
R-A inteligência? Algumas das pessoas mais perspicazes que conheço são pavorosas e vivem mergulhadas no seu ego, como as matrioscas, umas dentro das outras. A sabedoria? Se sabedoria fosse sinónimo não apenas de saber, mas também de saber ser... A sinceridade? Trata-se quase sempre de uma desculpa para se poder magoar os outros à vontade, compensando assim, falsamente, frustrações pessoais. A maior virtude é também a melhor: a bondade. E esta, com algumas honrosas excepções, costuma estar ausente de muitas das pessoas inteligentes, sabedoras e sinceras que conheço.

28.Como gostaria de morrer?
R-Com a consciência tranquila.

29.Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser?
R-Alguém melhor do que sou, e não seria difícil.

30.Qual é o seu lema de vida?
R-Não sigo um lema de vida. Tenho sonhos e projectos, que vou refazendo, afastando, recuperando, realizando. Como os músicos de jazz, decido os caminhos para atingir os fins de acordo com a estratégia mais apropriada — que tanto pode ser lúcida como apaixonada. O importante é, zás!, conseguir. Sem prejudicar ninguém, de forma honesta e, se for possível, com alguma originalidade.



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«A verdadeira viagem de descobrimento não consiste
em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.»

Marcel Proust

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